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AMBIENTE E ESCOLHAS SAUDÁVEIS NO ENFRENTAMENTO DA OBESIDADE

Nos últimos 20 anos foi possível observar um aumento importante da prevalência da obesidade em todo o mundo, incluindo o Brasil. A obesidade ocasiona um estado de desequilíbrio permanente no corpo, desregulando uma série de processos metabólicos e inflamatórios. Por este motivo, além de ser um fator de risco para as doenças crônicas não transmissíveis, a obesidade, por si só, é considerada uma doença crônica muito perigosa, que está associada às principais causas de morte na população.

Os resultados do último inquérito sobre frequência e distribuição de fatores de risco e proteção para doenças crônicas no Brasil - Vigitel, apontam que a prevalência de obesidade nos adultos brasileiros, entre os anos de 2006 e 2019, passou de 11,4% para 19,5% entre os homens, e de 12,1% para 21,0% entre as mulheres. Isto representa um crescimento proporcional superior a 70% para ambos os sexos no período avaliado. O ganho de peso e a obesidade dependem de comportamentos influenciados por uma série de determinantes. Apesar de haver um componente genético relacionado à sua ocorrência, o aumento da prevalência brasileira e mundial da obesidade tem sido atribuído ao estilo de vida atual da população, principalmente à alimentação inadequada e aos baixos níveis de atividade física.

Dados do Vigitel mostram que, em 2019, 15% dos adultos das capitais brasileiras consumiam refrigerantes em 5 ou mais dias na semana, enquanto apenas 22,9% se alimentaram de frutas e hortaliças com esta mesma frequência. Além disso, 44,8% da população adulta não praticava qualquer tipo de atividade física regularmente. Estes dados sinalizam uma importante questão a ser discutida no enfrentamento da obesidade como problema de saúde pública: apesar de haver recomendações nacionais e internacionais sobre possíveis caminhos para deter o seu crescimento, não há uma solução simples para o controle da obesidade na população. As principais diretrizes no combate à obesidade se concentram no comportamento individual, como o estímulo à prática de exercício físico e a promoção da alimentação adequada e saudável, porém pouco consideram a influência de outros determinantes que envolvem o ambiente e questões sociais em uma complexa rede de interações.

Um estudo publicado em 2018 investigou famílias de gêmeos, focando em questões associadas ao ambiente em que vivem - relacionadas à alimentação, nível de atividade física e influências de produtos calóricos e industrializados divulgados na mídia nas rotinas da casa. Os resultados indicaram que 18% da expressão genética da obesidade ocorreu devido aos ambientes domésticos que favoreciam piores escolhas alimentares e inatividade física, reforçando a importância de garantir influências saudáveis no ambiente familiar para a prevenção e controle desta doença.

O “ambiente obesogênico” é então definido pela relação entre ambiente, questões sociais e comportamentos que promovem a obesidade na população. Assim, os esforços dirigidos à mudança comportamental serão facilitados ou dificultados pela interação destes fatores no ambiente familiar, nas escolas, no trabalho, na comunidade etc. Os comportamentos alimentares, por exemplo, podem traduzir condições econômicas e de acesso aos alimentos, disponibilidade, variedade, preço e oferta em seus locais de aquisição que, muitas vezes, se sobrepõem à uma simples escola individual. Esta complexa rede de interações se apresenta como grande desafio às estratégias de prevenção e controle da obesidade.

Outros fatores como estresse no trabalho, fácil disponibilidade de alimentos ultraprocessados e fast foods - além do forte apelo de propagandas que remetem à sua praticidade, baixo custo e sabor agregado, somados ao tempo reduzido para realização das refeições e atividades físicas, além da ausência de espaços e relações sociais que estimulem a realização de exercícios também condicionam más escolhas individuais.

O SESI Saúde ressalta a importância de envolver na prevenção e enfrentamento da obesidade, além das orientações individuais para comportamentos saudáveis, considerações sobre os ambientes em que as pessoas vivem, estudam e trabalham, se existe acesso a estabelecimentos onde se possam adquirir alimentos saudáveis ou condições para a prática de atividade física e lazer. Destaca ainda a relevância do reforço das atitudes saudáveis por influências positivas nas relações sociais. Com este foco ampliado é possível também promover o cuidado coletivo a partir de ações estratégicas que beneficiem o dia a dia mais saudável e favoreçam as escolhas individuais.

REFERÊNCIAS:

1. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA PARA O ESTUDO DA OBESIDADE E DA SÍNDROME METABÓLICA. Diretrizes brasileiras de obesidade 2016 / ABESO - Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica. – 4.ed. - São Paulo, SP. Disponível em: https://abeso.org.br/wp-content/uploads/2019/12/Diretrizes-Download-Diretrizes-Brasileiras-de-Obesidade-2016.pdf

2. BRASIL 2019: Vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico: estimativas sobre frequência e distribuição sociodemográfica de fatores de risco e proteção para doenças crônicas nas capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal em 2019 [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças não Transmissíveis. – Brasília: Ministério da Saúde, 2020. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_2019_vigilancia_fatores_risco.pdf

3. SCHREMPFT S. Variation in the Heritability of Child Body Mass Index by Obesogenic Home Environment. JAMA Pediatrics 172 (12) Outubro de 2018. DOI: 10.1001 / jamapediatrics.2018.1508. Artigo completo disponível em: https://www.researchgate.net/publication/328054688_Variation_in_the_Heritability_of_Child_Body_Mass_Index_by_Obesogenic_Home_Environment