Publicações

A PANDEMIA DA COVID-19 E O CONSUMO INDEVIDO DE ÁLCOOL

A pandemia da COVID-19 vem impactando a saúde da população mundial. No Brasil, desde fevereiro de 2020, as estratégias de enfrentamento da pandemia exigiram mudanças no modo de vida e de trabalho que também trouxeram consequências negativas não intencionais para a saúde das pessoas. O rompimento abrupto das rotinas com a suspensão de grande parte das atividades presenciais laborais, escolares, físicas e recreativas, incluindo a proibição da permanência em praias e praças públicas, além das festas e comemorações tradicionais, ocasionou perturbações psicossociais de difícil manejo.

Para a cultura brasileira, em especial, a não aproximação física, a restrição ao toque, beijos e abraços, o não poder estar junto, são fontes importantes de geração de sofrimento. Os efeitos psicológicos desencadeados pela permanência em casa por períodos prolongados, redução da interação social e aumento do estresse têm estimulado comportamentos compulsivos, como o consumo de álcool, como forma de compensação psíquica de emoções como ansiedade, tédio, angústia e medo.

Consumir bebidas alcoólicas com responsabilidade e em quantidades moderadas é considerado um hábito social para os brasileiros. No entanto, o consumo de bebidas alcoólicas com frequência alta e em grandes quantidades pode desencadear uma série de problemas. No Brasil, o consumo de álcool per capita é maior que o dobro da média mundial, sendo de 15,1 litros puros por ano. Dados de 2019 demonstram que há um consumo cada vez mais precoce entre os jovens e que cerca de 18,8% da população apresenta um quadro de dependência alcoólica. Além do alto consumo per capita, o comportamento de ingerir muita bebida alcóolica em um período de 2 horas - o Beber Pesado Episódico (BPE)* - também é preocupante. Por causa desses indicadores crescentes verificados na última década, no dia 18 de fevereiro é celebrado o Dia Nacional do Combate ao Alcoolismo.

No primeiro semestre de 2020, já durante o período de restrição social da pandemia, a pesquisa ConVid, realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Estadual de Campinas avaliou o comportamento de 45.161 adultos brasileiros e observou que 17,6% destes relataram aumento da ingestão de bebida alcoólica. O aumento do consumo foi maior entre as pessoas de 30 a 39 anos de idade (24,6%) e também entre as pessoas que informaram estar se sentido muitas vezes ou sempre tristes ou deprimidas (46,3%).

O consumo de álcool é uma das principais causas de mortes evitáveis no mundo e, de acordo com os dados mais recentes do Sistema de Informações sobre Mortalidade, no Brasil cerca de 33.168 óbitos - 89,9% destes em pessoas do sexo masculino - são atribuídos diretamente ao seu uso. Há ainda o impacto deste consumo na mortalidade por acidentes de trânsito, homicídios e episódios de violência doméstica. É preciso alertar que o álcool está associado a diversas doenças e agravos, como resultado dos seus efeitos psicoativos, cancerígenos, tóxicos e teratogênicos. Destaca-se ainda que o consumo de álcool em grandes quantidades, assim como o seu uso crônico, diminui a imunidade – a capacidade do corpo de se proteger e evitar doenças, pois altera o sistema local de defesas do corpo e reduz o número das células que desempenham um papel importante no reconhecimento e destruição de microorganismos, o que pode aumentar o risco de infecção pelo Coronavírus.

Além disso, por ser uma substância depressora do sistema nervoso central, o seu consumo em excesso durante o isolamento social pode desencadear ou exacerbar episódios depressivos e ansiosos, como também aumentar o risco de suicídio. A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um folheto com informações importantes sobre o consumo de álcool e a COVID-19, considerando que não existe limite seguro para o consumo do álcool e que o dano à saúde aumenta com a quantidade consumida.

O SESI Saúde, nesse sentido, destaca a importância do suporte psicossocial para o enfrentamento das questões relacionadas ao uso indevido de álcool, assim como para o manejo do sofrimento psíquico gerado durante a pandemia. As pessoas que estão passando por estes problemas precisam de ajuda e o cuidado deve ser apoiado por uma equipe profissional especializada, que proporcione estratégias que fomentem a autonomia dos indivíduos para tomada de decisão consciente sobre suas vidas, com o incentivo a rotinas saudáveis, prática de atividades físicas, boa alimentação e manejo adequado do estresse.


*BPE: consumo de 60g ou mais de álcool puro (cerca de 4 doses ou mais) em, pelo menos, uma ocasião no último mês. Uma dose padrão equivale a 14g de álcool puro, o que corresponde a 350mL de cerveja (5% de álcool), 150mL de vinho (12% de álcool) ou 45mL de destilado (vodca, uísque, cachaça, gin, tequila, com 40% de álcool).

Referências:

1. Malta, DC. et al. A pandemia da COVID-19 e as mudanças no estilo de vida dos brasileiros adultos: um estudo transversal, 2020. Epidemiol. Serv. Saúde 29 (4) 25 Set 20202020. Artigo completo disponível em: https://doi.org/10.1590/S1679-49742020000400026 e gráficos de resultados disponíveis em: https://convid.fiocruz.br/index.php?pag=bebiba_alcoolica

2. Marques, MV. et al. Distribuição espacial das mortes atribuíveis ao uso de álcool no Brasil. J. Health Biol Sci. 2019; 8(1):1-11. Artigo completo disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2020/06/1100084/2934-publicado.pdf

3. Garcia, LP. Sanches, ZM. Consumo de álcool durante a pandemia da COVID-19: uma reflexão necessária para o enfrentamento da situação. Cad. Saúde Pública vol.36 no.10 Rio de Janeiro 2020 Epub Oct 26, 2020. Artigo completo disponível em: https://doi.org/10.1590/0102-311x00124520

4. World Health Organization (WHO). O álcool e a COVID-19: o que você precisa saber. Disponível em: https://www.uniad.org.br/wp-content/uploads/dlm_uploads/2020/04/PT_ALC_COVID_LONG_SHEET_11420OPAS.pdf